Marta tem 11 anos e é uma frequentadora assídua da nossa BE. Chamou-nos a atenção não só pelo número de livros que lê como pela rapidez com que o faz.Numa conversa ocasional, que tive com ela, propus-lhe que escrevesse um pequeno texto que falasse da sua paixão pela leitura. Partilho convosco o seu testemunho encantador que nos estimula à pratica da leitura pela forma entusiasta com que fala do amor que tem pelos livros.
"MELHOR QUE UM FILME
Em pequena nunca gostei muito
de ler. A minha mãe podia dizer “Marta, lê o livro que te deram”, eu dizia que
sim mas na verdade não o fazia, lia algumas páginas e depois saltava logo para
o fim.
Os
livros não me diziam nada, ao contrário da minha irmã que adorava ler. O que eu
gostava era de ver filmes e séries, não aqueles que só têm lamechices mas sim
os de ação.
Gostava
que as pessoas me dessem livros de ação, em vez disso davam-me “Diário de uma
Totó” e “7 irmãos” os que li e tinham mais ação foi “Avozinha Ganster” e
“Doutora tira dentes”.
Ás
vezes pedia à minha mãe para me comprar um livro, o meu erro era basear-me na
capa e depois quando chegava à altura de o ler não gostava, mas a minha mãe
obrigava-me dizendo “-Fui eu gastar dinheiro, para tu não o quereres, para a
próxima não te compro nada, mas agora tens de o ler.”
Aos
nove anos comecei a ler mais e aos dez nem queiram saber como a minha
bibliotecária, a professora Cristina, diz eu sou uma leitora compulsiva, começo
e nunca mais paro.
Comecei
a ler mais com esta idade por causa de uma menina da natação chamada Ana, uma
das melhores amigas da minha irmã.
Tudo
começou quando lhe deram um livro pelos anos, “Um dia Negro”, a Ana adorou-o e
quis logo emprestá-lo a uma amiga, neste caso a amiga foi a minha irmã. A minha
irmã, Mafalda leu-o em dois dias e também gostou muito da história.
Elas
começaram a comprar livros daquela coleção e a mostrá-los a mais raparigas da
natação até que um dia formaram um círculo de leitura na natação.
Eu
nunca tinha lido nenhum livro daquela coleção mas pelo que a minha irmã me
contava, eu pensava que aquilo era uma estupidez, pensava que era muito
infantil para uma menina de treze anos como a minha irmã.
Um
dia estava em casa da minha avó, não tinha nada para fazer então decidi pegar
num livro daquela coleção que a minha irmã se tinha esquecido de levar para
casa.
Li
as primeiras páginas e para meu espanto gostei, sempre tinha achado que os
livros não eram bons mas agora que estava a ler um deles, percebi que estava
enganada e o porquê minha irmã gostar tanto deles.
Foi
a primeira vez que li um livro em tão pouco tempo, li-o em três dias e daí
seguiu-se o resto da coleção, um conjunto de vinte e quatro livros.
Assim
que acabava de ler um livro queria logo começar outro mas o dinheiro não estica
por isso tinha de procurar alguém que me empresta-se.
Foi
difícil encontrar todos mas fiquei tão viciada que em cinco meses ou menos já
tinha lido a coleção inteira.
As
minhas amigas chamavam-me viciada e diziam que era para eu parar de ler, eu só
dizia “Só dizem isso porque nunca gostaram tanto de um livro como eu gosto dos
desta coleção”.
Senti uma coisa estranha dentro de mim
enquanto lia estes livros.
Eu
estava a ler um livro, estava super concentrada e do nada a minha mãe chama-me
“Marta, vem pôr mesa!” ou “Marta, vem jantar” eu digo “Já vou, deixa só acabar
a página”. É como se tivéssemos de pôr na pausa na parte mais emocionante de um
filme é difícil mas tens de o fazer. Normalmente, quando isso acontece
despacho-me rápido ou fico de mau humor por ter de interromper a minha leitura.
Enquanto
lia os livros desta coleção eu sentia as emoções das personagens, sabia como
eram os lugares onde iam, como era cada personagem e como era o seu tom de voz,
sabia tudo isto através da minha imaginação não através das imagens do livro
porque neste caso o livro nem sequer tem imagens.
Não
gosto quando os livros têm imagens pois nós imaginamos uma coisa e depois
aparece um imagem e temos de a imaginar de outra maneira temos de seguir os
desenhos a escolha de como o sítio vai ser é da imagem não nossa.
Na
minha opinião nenhum livro exceto as bandas desenhadas devia ter imagens. Para
que serve um livro se não podemos imaginar? Se não podemos deixar a nossa
maginação voar? Como querem que as pessoas gostem de ler se têm de pensar nas
coisas consoante os desenhos?
As
pessoas têm de saber sentir um livro, têm de o saber apreciar, só sabemos que
gostámos mesmo de um livro quando demonstra-mos emoções. Eu sei que gostei do
livro não só por sentir as emoções das personagens mas sim porque consegui projetar
na minha mente a história, aliás todas as histórias de todos os livro. Se
voltar a ler o mesmo livro sei que vou chorar nas partes em que chorei da
primeira vez, sei que vou ficar feliz e animada nas partes em que fiquei quando
li na primeira vez.
Pensar
que os episódios vividos nos livros são a vida real torna a vida mais divertida
e interessante.
Acho
que se não gostarmos de ler é porque somos diferentes de todos os outros e não
sabemos aproveitar o que os livros nos dão ou ainda não encontramos a coleção
ou o livro ideal.
Eu
não consigo definir todas as emoções, todas as sensações que sinto ao ler um
livro à partes que chegam mesmo a ser assustadoras mas eu não me importo porque
sei que só me sinto assustado porque estou a entender o livro, porque sei que
na minha mente estou a viver o livro.
Acho
ao contrário do que muita gente pensa, ser escritor é uma profissão muito
importante, às vezes uma frase, uma palavra ou um livro pode mudar a vida a um
ser humano.
Eu
aprendi que os livros não são conjuntos de letras, são verdadeiros filmes
aqueles que tu não perderias por nada, mesmo que o mundo estivesse a acabar tu
tinhas de o ver.
Não
é preciso um ecrã de televisão para veres uma cena policial só precisas de
utilizar a tua imaginação e um livro pode tornar-se mil vezes melhor do que um filme.
Agora
isto é uma verdade e ninguém deve duvidar um livro vale milhões, vale ouro,
vale mais do que centenas ou mesmo milhares de filmes e séries.
Nunca
digas que ler é desperdiçar o tempo porque estás muito enganado."
Marta Martins
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